Brahmacarya – controle sobre os sentidos

7 05 2010

Dando continuidade estudo dos yama e niyama de Pātañjali, abordaremos neste texto apenas o quarto yama: brahmacarya. Yama muito mal interpretado, que já gerou e que ainda vai gerar muita discussão, principalmente no que se refere à sexualidade, algo que ainda é um “tabu” ou “falso moralismo” na nossa sociedade dita civilização e moderna…

Muitas vezes brahmacarya é visto unicamente como castidade, continência ou total abstenção de relações sexuais. Mas não são os atos físicos e externos que transformarão alguém em brahmacharin, de nada adianta manter-se isento de relações sexuais e mesmo evitar olhar para uma pessoa do sexo oposto se a sua mente e pensamentos não forem puros. Se a mente é impura, escrava dos desejos, com excesso de sensualidade e sempre desperdiçando energia vital em besteira, não será o simples ato de castidade que santificará alguém, pelo contrário, isso pode gerar grandes conflitos internos. Você pode até querer enganar aos outros mas nunca deixará de enganar a si próprio.

Para compreendermos um pouco sobre esses valores, o primeiro passo é retirar da mente os próprios valores culturais, morais e preconceitos, como se fosse uma roupa suja que tiramos do corpo. Menos julgamento, menos ego, mais pensamento positivo e meditação. Depois disso a mente poderá compreender como o pensamento hindu interpreta isso e não simplesmente querer adaptar um conceito de acordo com as suas finalidades ou interesses. Faça um exercício intelectual de olhar a cultura alheia e não julgar o outro com os próprios valores culturais, se não fizermos isso não conseguiremos compreender o pensamento hindu e muito menos o Yoga.

Para Swami Muktibodhananda, duas palavras compõem o termo brahmacharya: “Brahma, ‘consciência pura’, consciência elevada’ e carya, ‘aquele que move’. Portanto, significa ‘aquele que vive em constante consciência de Brahma’; ‘aquele cuja consciência é absorvida na consciência pura, aquele ao qual a mente está acima da dualidade do masculino/feminino, que vê o atma em todos’. Aquele que está em constante comunhão com atma é um brahmacari” (MUKTIBODHANANDA,Swami. Hatha Yoga Pradipika. Pág. 58).

Aquele que vive na busca do conhecimento da sua verdadeira essência, que busca atma, que se dedica intensamente aos estudos das escrituras védicas e que percebe que atma está dentro de cada ser, vive em brahmacarya, vive no caminho para Brahman. Brahmacarya é manter a mente voltada em Deus e controlando os desejos que vêm dos orgaos sensoriais sentidos.

Muitos grandes Mestres foram casados, tiveram filhos e viveram em constante consciência pura ou consciência de Brahman. Para Iyengar, “brahmacarya é a vida conjugal feliz, uma vez que o homem casado ou a mulher casada aprende a amar o cônjuge tanto com a cabeça como com o coração” (IYENGAR.B.K.S. A árvore do Ioga. Pp 56-57).

Brahmacarya ainda pode significar uma das quatro etapas da vida do homem, seguindo assim uma tradição da Índia antiga. Cada um desses estados é chamado de aśrama: brahmacharya aśrama, grihastha aśrama, vanaprastha aśrama e sannyasa aśrama.

Brahmacarya aśrama é a fase que percorre os primeiros vinte e cinco anos de vida. Durante a infância, a criança vive ao lado do seu Guru, recebendo ensinamentos e educação tanto para a vida mundana quando para a sua vida espiritual, é também uma fase de discipulado e de intenso estudo. Grihastha ou grihasthya aśrama: nesses próximos vinte e cinco anos é a fase de constituição de família e de matrimônio. O chefe de família vive de acordo com um código comportamental exposto no “Dharma Śāstra”. Vanaprastha aśram: depois de cumprida as responsabilidades como chefe de família, o homem pode buscar uma nova fase de vida baseado no ascetismo e no eremitismo. Período de intensificação dos estudos das escrituras, das práticas de rituais e de meditação. Muitos buscam o isolamento em ashrams ou até em florestas.

Sannyasa aśrama: é a fase do voto de renúncia, livre da convivência em sociedade, de relações familiares e instituições em geral, o sannyasi dedica-se inteiramente as práticas espirituais. Mesmo estando livre das jurisdições sociais, a sociedade e as pessoas cuidam dos seus renunciantes, dando-lhe amparo de alimentos, abrigos, cuidados e roupas quando necessários.

Resumidamente foi exposto o sistema de aśrama, direcionado para aqueles que naturalmente nascem com uma forte inclinação ao desenvolvimento espiritual

O yama brahmacarya deve ser visto, acima de tudo como um grande sādhana (prática) de controle dos sentidos e não simplesmente como um “simples” ato de castidade. Controlar a relação mental entre querer/desejar. Controlar a relação mental entro o eu/quero. Buscar a reflexão sobre a finalidade do desejo, para que desejar? O que desejar? Que tipo de satisfação busco com os desejos? Enfim, tornar a mente mais lúcida em relação aos seus próprios pensamentos. Controlar a relação de cada órgão sensorial com os desejos criados na mente e libertar a mente deste circulo: querer e desejar coisas. Quanto menos coisas desejarmos, menos sofremos e mais felizes seremos. Isso também está presente no yama aparigrahā, não possessividade.

Abraços e até

Om Namah Śivaya,

Mahadev – danielyoga@gmail.com – yogashamkara@gmail.com


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