Īśvara Pranidhana: entrega a Deus

7 05 2010

Īśvara significa Senhor ou Deus enquanto pranidhana significa entrega, dedicação. Īśvara pranidhana é a entrega dos nossos esforços a essas energias superiores na qual chamamos de Deus. Assim como um devoto busca forças em seu Ista Devata ao mesmo tempo ele também confere o frutos de suas ações.

Este īśvara é um arquétipo que nos confere a força espiritual para progredirmos no sādhana do Yoga. Precisamos de arquétipos mentais para poder compreender os planos espirituais. Podemos buscar a força em Ganeśa quando queremos proteção e desbloqueio dos nossos caminhos; força em Śiva para progredirmos na meditação; conhecimento em Sarasvatī; fortuna espiritual em Lakśmi; determinação e busca no re-estabelecer em Rāma, a devoção em Hanuman etc, quando estamos buscando este tipo de força espiritual estamos buscando īśvara para transcendermos as nossas limitações mentais. Como a prática de rituais (pūjā) (que tem origem no Bhakti Yoga) faz parte do dia a dia da cultura hindu, o ato de lembrar de īśvara, ou agradecer as deidades, acaba fazendo parte da própria vida, assim estamos sempre à mente focada, ou pelo menos se esforçar para estarmos sempre focada.

Ao longo de todo o dia podemos fazer pequenos atos de entrega, por exemplo, antes das refeições, normalmente usando o sloka 24-IV da Bhagavad Gītā para lembrar de Brahman, oferecer o alimento, lembrar que todo o alimento vem da Terra e de Brahman. Assim conseguimos ter o controle sobre os nossos sentidos e instintos e ainda fazer uma prática devocional. Controlar a mente com fome é difícil, mais o difícil ainda é controlar a mente estando na frente de uma refeição servida. Esse é um momento que a mente fica muito agitada e simplesmente quer com que o dono da mente coloque logo toda aquela comida para dentro do corpo para satisfazer os desejos. Nesse momento que parece difícil falar em īśvara pranidhana, este sloka nos ensina a ter paciência, devoção, controle sobre os nossos sentidos e respeito a īśvara. Pela cultura bhakti, é tradição oferecer todo o alimento à Brahma, então quando estamos cozinhando evite ficar cheirando e provando a comida. A prática consiste em retirar os desejos em relação ao alimento, tenha sempre em mente que o alimento que você irá preparar será um alimente oferecido, por isso não ficamos desejando o alimento. Isso começa desde o ato de escolher os alimentos, depois de cortar os legumes, refogar, temperar etc. Faça o alimento com este sentimento bhakti, sirva e antes de ingeri-lo recite o sloka, pode ser também oferecido no altar para as deidades e depois servido como prasad, alimento consagrado. E o mais incrível que quando preparamos qualquer alimento com um sentimento devocional puro e verdadeiro, sempre acertamos nos temperos.

Brahmārpanam Brahma Havir

Brahmāgnau Brahmanā Hutam

Brahmaiva Tena Gantavyam

Brahma Karma Samādhinaha

O instrumento em que se oferece é Deus. A oferenda é Deus.
O fogo é Deus. O ato de oferecer é Deus.
Aquele que realiza o oferecimento é Deus.
Bhagavad Gtā, Capítulo IV, verso 24

Por mais que tenhamos determinação na execução dos nossos atos, às vezes, por motivos explicáveis, a concretização das ações não acontece. Inexplicáveis à nossa mente limitada, mas não aos planos astrais.

Quando algo que planejamos por muito tempo não acontece ficamos irados, chateados, aborrecidos e muito estressado com a realização não obtida. Tais estados emocionais só pioram as situações. Já que aconteceu, aconteceu… Não adianta perder a cabeça que não vai mudar em nada a situação ocorrida, pelo contrário, só piorará as coisas para você. É bem simples, se não tem solução, solucionado está!!! Em qualquer situação você terá sempre duas opções. Se o seu problema tiver uma solução relaxe, pois a solução chegará, pode demorar, mas chegará. Ou, se o seu problema não tiver solução não se estresse, pois a solução vai nunca chegará e você sé perderá tempo na vida buscando uma solução que não existe. Īśvara pranidhana pode atuar mais ou menos por este mecanismo, quando as situações ficarem longe do seu domínio, deixe para lá… entregue os atos aos planos astrais superiores, ao destino, à Brahma, ao Puruśa, ao seu Ista Devata (deidade de culto próprio), ao cosmos, anjo da guarda ou de qualquer outro nome dar entregar a situação.

Têm coisas que estão muito além e aquém da nossa compreensão mental, íshwara pranidhana é essa energia que nos cerca e que está além dos nossos alcances mundanos. Isso não indica situação de passividade, conformismo ou fatalismo, pelo contrário, isso indica que devemos estar sempre lúcidos em todas as situações de nossas vidas para poder administrá-las melhor, dando sempre o máximo de si e sempre buscando alternativas com atos de humildade para as superarmos as mais diversas situações.

Tudo na existência é regido pela impermanência, (aparentemente) existem momentos de fraqueza que nos fazem tomar certos atalhos e sem que nos demos conta colocamos as nossas vidas por água abaixo, por conseqüência geramos karmas que nos são vistos como erros imperdoáveis. Em questão de segundos tudo que perfeito em nossa vida se torna um verdadeiro caos. Às vezes somos nós que tangenciamos a nossa vida, outras vezes outras pessoas cruzam na sua vida e mudam o seu destino. Tudo é karma, tudo é um grande efeito borboleta.

A primeira coisa que no vem à mente quando algo muito forte acontece em nossas vidas é a idéia de questionar próprio Deus fazendo a velha pergunta: “onde estava Deus na hora que tanto errei”? īśvara está onde sempre esteve, a única coisa é que vivendo em níveis de stress elevados e de desgastes energéticos tão grandes que acabamos não olhando para īśvara como deveríamos. Na verdade até olhamos mas não enxergamos com sinceridade e fé, ficamos cegos e caímos nas baixas vibrações mentais e astrais. Daí vem à segunda pergunta: “porque Deus fez isso comigo?”. Deus não fizeste nada contigo, quem fez qualquer coisa a você foi você mesmo pelo simples fato de deixar de orar e vigiar. No momento que começamos a orar com a mente e não mais com o coração estamos falhando, no momento que deixamos de vigiar os nossos pensamentos estamos nos enfraquecendo. Orai e vigiai pode ser facilmente compreendido como grande dedicação aos rituais de Bhakti Yoga e Rāja Yoga. Quem ora está em Bhakti Yoga, quem vigia a mente está em Rāja Yoga.

Os erros que antes eram imperdoáveis com o tempo acabam se tornando os maiores tutores de sua vida. Somente assim estaremos diante de um grande processo de transformação efetiva. Os mesmo erros que antes eram imperdoáveis devem e precisam ser perdoados por você mesmo, se você não perdoa a si próprio você não pode esperar que as pessoas o perdoem, se você não ama a si próprio não pode esperar que as pessoas o amem, se você não respeita a si próprio como exigir respeito dos outros.

Com a “real experiência de transformação” você pode aprender em um período de um mês muito mais do que em sete anos de simples acúmulo de leituras que ficam apenas guardadas nos planos da mente. Conhecimento teórico realmente não serve para nada sem uma experiência de realização. Você pode ter uma vida inteira de dedicação a leitura de livros, mas se não tiver um segundo de experiência transcendental você não compreenderá a essência do conhecimento. É como querer cheirar um perfume de dentro de um frasco sem retirar a tampa. Você pode ter o vidro do perfume em mãos não terá a fragrância do perfume em sua mente. O conhecimento teórico é na verdade num grande alimentador do ego e mesmo que você não perceba, esse ego já pode estar numa proporção tão gigantesca que você não conseguirá nem mesmo ver o próprio ego, às vezes uma queda pode ser necessária para você conseguir ver isso dentro de você. Por mais dolorida que seja a queda, ela poderá salvar a sua própria vida, nunca desista da prática de Īśvara Pranidhana. Entregue seu ato aos Devas, ore, vigie e dia após dia transforme-se em algo melhor através dos atos de entrega. Dica: funciona mesmo, portanto não duvide! “Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses” (Rubem Alves).

Isso constitui os yama e niyama definidos por Sri Pátañjali Maharishi.

Om namah Śivaya – ॐ नमः शिवाय
Mahādeva (Daniel Nodari) – महादेव


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